Eleições no Brasil: Movimento coordenado de agressões à imprensa se consolida na campanha

Depois de oito semanas de monitoramento de ataques contra a imprensa no Twitter no contexto eleitoral, é possível identificar padrões que se reproduzem ou se intensificam a cada semana e que sugerem que muitos dos ataques que jornalistas e veículos vêm sofrendo não são espontâneos ou aleatórios, mas resultado de uma coordenação de atores e recursos com o objetivo de silenciar a imprensa. Na semana do dia 3 ao dia 9 de outubro, a Repórteres sem Fronteiras (RSF) registrou 10.196 postagens com conteúdos ofensivos a jornalistas e meios de comunicação nas redes sociais.

Entre as hashtags mais utilizadas no período, estão #globolixo (3.496), #cnnlixo (158), #folhalixo (151), #globolixoderretendo (98) e #uollixo (92).

O monitoramento revela que as hashtags em geral não são reproduzidas de maneira isolada ou aleatória. Muitas vezes elas são veiculadas com hashtags ligadas à campanha eleitoral - sobretudo do candidato Bolsonaro: #bolsonaropresidente22, #ptnuncamais, #bolsonaroreeleito e #lulaladrão.

Outro aspecto observado na utilização dessas hashtags é que muitas são publicadas de maneira articulada com outras por grupos de usuários. No grafo abaixo, por exemplo, observamos que a hashtag #globolixo aparece associada a outras hashtags de ataque. Essa conexão nos ataques por meio de hashtags sugere a criação de um tipo de “comunidade” de usuários em torno delas.

 

Quando analisados os perfis que, de maneira articulada, compartilham diferentes hashtags de ataque a veículos de comunicação, os dados revelam as comunidades formadas e os usuários mais ativos dentro de cada uma, como mostra o grafo abaixo.

Chama atenção ainda que algumas das contas com grande número de publicações agressivas contra a imprensa foram criadas há pouco tempo. O usuário @otavioa12144364, por exemplo, criou sua conta em julho de 2022; @jisente, em agosto; e @gomesflaviom, @nitinhobrito9 e @kanon41480513, em setembro. No momento da coleta de dados dessa semana, as contas @jisente e @gomesflaviom eram seguidas por zero e quatro perfis respectivamente. A primeira compartilhou 28 postagens contra o jornalismo nesta semana e a segunda, 15. 

Nesses casos, também há um grande predomínio de compartilhamentos de postagens de autoria de outros perfis que atacam a imprensa e pouca interação com a comunidade do Twitter sobre outros temas, de maneira orgânica. Os exemplos sugerem que muitas contas que realizam grande quantidade de postagens ofensivas à imprensa no período eleitoral podem ter sido criadas exatamente com este objetivo. 

Alvos da semana

Os 10 jornalistas que mais receberam ataques na semana foram Miriam Leitão (857); Rachel Sheherazade (822); Mônica Bergamo (821); Ricardo Noblat (447); Milton Neves (345); Guga Chacra (256); Eliane Cantanhêde (226); Reinaldo Azevedo (209); Vera Magalhães (159); e Andréia Sadi (139).

O padrão dos jornalistas mais atacados em semanas anteriores se mantém, com um destaque para Rachel Sheherazade, que recebeu uma proporção de postagens ofensivas maior nessa semana em respostas a críticas que fez ao presidente Bolsonaro.

Um ataque provocado e coordenado no Instagram



Nesta semana, o projeto de monitoramento das redes RSF/Labic-UFES constatou um ataque provocado por uma autoridade pública e coordenado contra um veículo de comunicação no Instagram. No dia 4 de outubro, o Portal Catarinas, que cobre temas relacionados aos direitos das mulheres, publicou uma entrevista com a antropóloga Simony dos Anjos, tratando de temas como feminismo e cristianismo. A reportagem, intitulada “Conheça Simony dos Anjos, defensora de um cristianismo libertário para as mulheres”, foi repercutida num carrossel de imagens no perfil do portal no Instagram. 

Dois dias depois, atendendo ao chamado da deputada estadual Ane Caroline Campagnolo, do PL de Santa Catarina, pelo menos 2.300 usuários da plataforma realizaram comentários na publicação sobre a entrevista. A forma de intimidação nesse caso foi diferente das que têm sido identificadas contra veículos e jornalistas que cobrem diretamente a pauta política, especialmente no que se refere aos termos utilizados. 

Nos comentários orquestrados, a expressão orientada para uso pela deputada Ane Caroline - “Não existe feminista cristã” - foi a mais repetida. O termo “cristã” foi o mais utilizado, ligado às palavras “feminista”, “feminismo” e “demônio”, ligadas por suas vez a “aborto” e “abortista”, estigmatizando posições feministas como anti-cristãs. Em postagens de forte viés religioso, as palavras cristo, igreja, evangelho, deus e bíblia também aparecem interligadas.

 

O grafo mostra os termos mais utilizados nos comentários de intimidação ao Portal Catarinas feitos no post de divulgação da entrevista com Simony dos Anjos 

O padrão do ataque é claramente coordenado pois, entre os dias 4 e 5 de outubro, o post somava apenas 44 comentários. No dia 6 de outubro, depois que a parlamentar convocou seus seguidores a agir, o post recebeu mais de 1.900 comentários, muitos com a mesma frase repetida. No dia 7 até às 16 horas, quando os dados foram coletados, foram mais  214 comentários.

 

O caso é um exemplo de que, para intimidar veículos e jornalistas, não é necessária a utilização de termos e hashtags explicitamente ofensivos à imprensa. Aqui, o volume e frequência das postagens foram usados numa tentativa de constrangimento e silenciamento do Portal Catarinas. 

Cabe destacar que a deputada Ane Caroline Campagnolo, que se apresenta no Instagram como “Bolsonarista. Antifeminista. Conservadora. Prof de História. Empresária. Esposa do Capitão Galvão”, é proponente e relatora de uma CPI, instalada neste dia 11 de outubro na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, para investigar a conduta de jornalistas do Portal Catarinas e do The Intercept Brasil. Elas reportaram o episódio de negação do direito ao aborto legal a uma criança de 11 anos, vítima de estupro no estado no início do ano. O contexto precisa ser considerado no episódio, que teve claro objetivo intimidatório ao veículo.

Sobre o projeto

Durante as eleições (16 de agosto a 30 de outubro), a Repórteres sem Fronteiras realiza um monitoramento sistemático das redes sociais, em particular do Twitter, para analisar e decifrar o alcance e os padrões por detrás dessa hostilidade crescente contra o jornalismo. Até o final do segundo turno, 120 jornalistas e comentaristas, além de perfis de autoridades públicas e candidatos às eleições, serão acompanhadas diariamente em parceria com o Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), centro de pesquisa de referência especializado em análise de redes sociais e tendências digitais. 

A RSF publica análises semanais com base nos levantamentos realizados, que estão compilados nesta página.

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